Quando o casal termina, mas a parentalidade continua
Nem todo relacionamento termina de forma saudável. E, na prática clínica, eu vejo algo ainda mais desafiador: muitos casais deixam de funcionar como parceiros afetivos, mas continuam profundamente conectados por um vínculo que não pode ser desfeito — os filhos.
É nesse ponto que surge uma das maiores fontes de sofrimento emocional pós-separação: a dificuldade de construir acordos de coparentalidade.
Discussões frequentes, decisões inconsistentes, mensagens carregadas de ressentimento… tudo isso cria um ambiente emocional instável — não apenas para os pais, mas principalmente para a criança.
E aqui está um ponto importante que muitas pessoas não percebem:
O problema não é necessariamente o fim do relacionamento.
O problema é como ele continua existindo na forma de conflito parental.
Neste artigo, eu vou te mostrar, com base na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e na prática clínica, como a terapia de casal pode ajudar a estruturar acordos de coparentalidade saudáveis, reduzir conflitos e proteger o desenvolvimento emocional dos filhos.
O que é Coparentalidade?
O conceito de Coparentalidade na TCC: Além do fim do casamento
Coparentalidade é a capacidade de dois pais — separados ou não — de cooperar, comunicar-se e tomar decisões conjuntas sobre a criação dos filhos, priorizando o bem-estar da criança acima dos conflitos pessoais.
Em outras palavras:
Coparentalidade não depende de um bom relacionamento amoroso — depende de um funcionamento parental organizado.
Pesquisas mostram que a qualidade da coparentalidade é um dos principais fatores que influenciam a saúde mental das crianças após a separação dos pais. Ambientes com alto nível de conflito estão associados a maior risco de ansiedade, depressão e dificuldades comportamentais.
Por que a maioria dos casais falha na coparentalidade?
Se a ideia parece simples, por que ela é tão difícil na prática?
A resposta está menos na lógica e mais nos processos emocionais e cognitivos envolvidos.
1. Confusão entre papel conjugal e papel parental
Um dos erros mais comuns é misturar o fim do relacionamento com o fim da parceria como pais.
Na prática, isso aparece assim:
• “Não quero falar com ele(a)” → vira dificuldade de alinhar decisões sobre o filho
• “Ele(a) me magoou” → influencia decisões parentais
• “Não confio mais” → gera rigidez ou controle excessivo
Na TCC, entendemos que pensamentos automáticos negativos sobre o ex-parceiro influenciam diretamente o comportamento atual — inclusive na parentalidade.
2. Ressentimento emocional não resolvido
Mágoas acumuladas não desaparecem com a separação. Muitas vezes, elas ficam ainda mais intensas.
E isso gera distorções cognitivas como:
• Leitura mental (“ele fez isso para me provocar”)
• Personalização (“tudo é contra mim”)
• Generalização (“ele nunca coopera”)
Resultado?
Toda interação vira um gatilho emocional — e não uma conversa funcional.
3. Comunicação reativa em vez de estratégica
A maioria dos pais separados não tem um modelo de comunicação funcional.
Eles operam em modo automático:
• Respondem no impulso
• Entram em discussões desnecessárias
• Misturam assuntos emocionais com decisões práticas
Sem estrutura, a comunicação vira um campo de batalha.
4. Uso (consciente ou não) dos filhos no conflito
Esse é um ponto delicado, mas extremamente importante.
Exemplos comuns:
• Usar o filho como mensageiro
• Criticar o outro genitor na frente da criança
• Competir por afeto
• Manipular situações para “ganhar” do outro
Mesmo quando não há intenção consciente de prejudicar, o impacto emocional na criança pode ser significativo.
Impactos da coparentalidade na saúde emocional dos filhos
Se existe um ponto que precisa ficar claro, é este:
A forma como os pais se relacionam após a separação impacta diretamente o desenvolvimento emocional dos filhos.
Pesquisas indicam que:
• Conflitos coparentais frequentes aumentam níveis de ansiedade e estresse infantil
• Crianças expostas a disputas constantes podem desenvolver insegurança emocional
• A inconsistência de regras entre casas gera confusão e dificuldade de autorregulação
Por outro lado:
• Coparentalidade cooperativa está associada a maior autoestima
• Crianças se adaptam melhor à separação quando há previsibilidade
• Ambientes emocionalmente estáveis favorecem o desenvolvimento saudável
Ou seja:
Não é a separação que mais prejudica — é o conflito contínuo.
Como funciona a terapia de casal para acordos de coparentalidade
Muitas pessoas acreditam que terapia de casal só faz sentido quando o objetivo é salvar o relacionamento.
Mas isso não é verdade.
Na prática clínica, a terapia de casal também pode ter um foco específico:
Reestruturar a relação para um modelo funcional de coparentalidade.
Aqui estão os principais pilares desse processo.
1. Separação clara entre conjugalidade e parentalidade
O primeiro passo é ajudar o casal a entender que:
• O relacionamento amoroso pode ter terminado
• Mas o vínculo parental continua
Isso reduz interferências emocionais nas decisões práticas.
2. Construção de acordos objetivos
Em vez de decisões improvisadas, a terapia ajuda a criar acordos claros sobre:
• Rotina da criança
• Regras de disciplina
• Horários
• Escola
• Saúde
• Uso de telas
A clareza reduz conflitos futuros.
3. Treino de comunicação funcional
Os pais aprendem habilidades como:
• Comunicação assertiva
• Escuta ativa
• Validação emocional
• Negociação
Isso transforma a interação de reativa para estratégica.
4. Regulação emocional: TCC + técnicas complementares
A reatividade emocional é um dos maiores sabotadores da coparentalidade.
Na terapia, trabalhamos:
• Identificação de gatilhos
• Reestruturação cognitiva
• Técnicas de regulação emocional
• Redução de impulsividade
Isso diminui discussões e melhora a qualidade das decisões.
Os 5 pilares de acordos de coparentalidade eficazes
Para que a coparentalidade funcione de forma saudável, alguns princípios são fundamentais:
1. Clareza de regras
Ambiguidade gera conflito.
2. Consistência entre casas
Diferenças existem — mas precisam ser minimizadas.
3. Comunicação previsível
Evitar mensagens impulsivas e desorganizadas.
4. Baixo nível de conflito
Nem todo desacordo precisa virar discussão.
5. Foco na criança (não no passado)
Decisões devem ser guiadas pelo bem-estar do filho — não por mágoas antigas.
Exemplo prático: Como a terapia muda a dinâmica
Vou te dar um exemplo realista (com adaptações para preservar anonimato):
A. e C. não conseguiam conversar sem discutir.
Qualquer decisão — desde horário de visita até questões escolares — virava um conflito.
Durante a terapia, estruturamos três acordos simples:
• Decisões importantes seriam feitas por mensagem (não presencialmente)
• Conflitos teriam uma pausa mínima de 24h antes de resposta
• Assuntos emocionais não seriam misturados com decisões sobre o filho
O que aconteceu?
• Redução significativa das discussões
• Aumento da previsibilidade
• Melhora no comportamento da criança
Pequenas mudanças estruturais geraram grande impacto.
Quando procurar terapia de casal para coparentalidade?
Se você está em dúvida, aqui vão alguns sinais claros:
• Toda conversa vira discussão
• Há dificuldade em tomar decisões conjuntas
• Existe ressentimento constante
• O filho começa a apresentar sinais emocionais
• Há inconsistência de regras
• Você evita contato com o outro genitor
Se você se identificou com dois ou mais desses pontos, a terapia pode ser extremamente útil.
Coparentalidade saudável não significa ausência de conflito
Esse é um mito importante.
Não existe coparentalidade perfeita.
O objetivo não é eliminar conflitos — é gerenciá-los de forma funcional.
Pais saudáveis:
• Discordam
• Negociam
• Ajustam
Mas fazem isso com foco na criança — e não no ego.
Estratégias práticas que você pode começar hoje
Mesmo antes da terapia, algumas mudanças já podem fazer diferença:
- Evite responder no impulso
- Separe questões emocionais de decisões práticas
- Use comunicação objetiva
- Defina regras básicas claras
- Pergunte: “isso é melhor para meu filho?”
Pequenas mudanças geram grandes efeitos ao longo do tempo.
Quando a ajuda profissional faz diferença
Se você sente que a comunicação com o outro genitor está desgastante, confusa ou emocionalmente intensa, é importante saber:
Isso não significa que não existe solução.
A terapia de casal com foco em coparentalidade ajuda a:
• Reduzir conflitos
• Estruturar acordos claros
• Melhorar a comunicação
• Proteger o desenvolvimento emocional dos filhos
Se fizer sentido para você, você pode agendar uma sessão online comigo e começar a construir um modelo mais saudável de parentalidade.
O que realmente está em jogo
No fim das contas, a coparentalidade não é sobre o passado do casal.
É sobre o futuro da criança.
E a pergunta mais importante não é:
“Quem está certo?”
Mas sim:
“O que meu filho precisa para se desenvolver de forma saudável?”
Quando essa mudança acontece, toda a dinâmica começa a se transformar.
Perguntas Frequentes sobre Terapia de Casal para Coparentalidade
1. O que é coparentalidade saudável?
Coparentalidade saudável é quando os pais conseguem cooperar, comunicar-se e tomar decisões conjuntas focadas no bem-estar da criança, mesmo após a separação.
2. A terapia de casal funciona para pais separados?
Sim. Nesse caso, o foco não é o relacionamento amoroso, mas a construção de uma relação funcional como pais.
3. Como melhorar a comunicação com o ex-parceiro?
Use comunicação objetiva, evite respostas impulsivas, estabeleça regras de interação e foque em soluções, não em acusações.
4. O conflito entre os pais afeta os filhos?
Sim. Conflitos frequentes estão associados a ansiedade, insegurança emocional e dificuldades comportamentais nas crianças.
5. Quando procurar terapia para coparentalidade?
Quando há conflitos frequentes, dificuldade de comunicação, impacto nos filhos ou incapacidade de construir acordos estáveis.
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DR. OSVALDO MARCHESI JUNIOR
Psicólogo em São Paulo - CRP - 06/186.890
Atendimentos Psicológicos On-line e Presenciais para pacientes no Brasil e no exterior.
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e Hipnoterapia.
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