Já atendi pessoas extremamente inteligentes, sensíveis e competentes que, repetidamente, sabotavam as próprias conquistas.
Quando tudo começava a dar certo — um relacionamento saudável, uma oportunidade profissional, uma fase emocionalmente estável — algo parecia puxá-las para trás. Como se existisse um conflito invisível entre o desejo de viver plenamente e uma força interna que as conduzia à repetição da dor.
Muitas vezes, elas mesmas diziam:
“Eu não entendo por que faço isso.”
“Parece que eu estrago tudo quando está ficando bom.”
“É como se tivesse algo em mim que não me deixa ser feliz.”
Na psicologia, especialmente a partir das formulações de Sigmund Freud, esse conflito foi descrito como a tensão entre Eros e Tânatos — o instinto de vida e o instinto de morte.
Mas o que isso realmente significa? E mais importante: o que isso tem a ver com autossabotagem, depressão, compulsões e padrões repetitivos nos relacionamentos?
É sobre isso que quero aprofundar neste artigo.
O que é Eros e Tânatos na psicologia?
Eros e Tânatos são conceitos da teoria psicanalítica formulada por Sigmund Freud para descrever duas forças fundamentais que atuariam na mente humana.
Eros representa o instinto de vida. Está relacionado à preservação, ao vínculo, ao amor, à sexualidade, à criatividade, ao desejo de construir e de manter a própria existência.
Tânatos, por outro lado, representa o instinto de morte. Está associado à agressividade, à destruição, à tendência à repetição do sofrimento, ao impulso de desfazer, romper ou sabotar aquilo que promove crescimento.
Freud propôs que a vida psíquica não é guiada apenas pelo prazer e pela busca de satisfação, mas também por uma força silenciosa que empurra o indivíduo para estados de tensão, ruptura e, simbolicamente, para a dissolução.
É importante esclarecer algo: quando falamos em instinto de morte, não estamos necessariamente falando de um desejo consciente de morrer. Muitas vezes, estamos falando de comportamentos autodestrutivos sutis, padrões de autossabotagem, escolhas repetitivas que mantêm a pessoa em sofrimento.
A diferença entre instinto de vida e instinto de morte
O instinto de vida está presente quando alguém decide se cuidar, estabelecer limites, buscar crescimento, criar vínculos saudáveis e desenvolver projetos pessoais.
Ele aparece quando o indivíduo investe energia em construir algo: uma carreira, uma família, uma identidade coerente.
Já o instinto de morte se manifesta de forma mais silenciosa e complexa. Ele pode surgir como:
– Impulsividade que destrói vínculos
– Escolha repetitiva de parceiros indisponíveis
– Autocrítica severa e punitiva
– Comportamentos compulsivos
– Procrastinação crônica que impede crescimento
– Agressividade voltada contra si mesmo
Na prática clínica, percebo que o conflito entre Eros e Tânatos não é um embate óbvio. É uma ambivalência interna. A pessoa quer melhorar, mas simultaneamente repete padrões que a mantêm presa.
Esse é o ponto central: não se trata de fraqueza. Trata-se de conflito psíquico.
Eros e Tânatos na vida cotidiana: Exemplos reais de conflito interno
Vou trazer alguns exemplos que frequentemente observo na clínica.
Imagine alguém que deseja profundamente um relacionamento saudável. Ela diz que quer estabilidade, respeito e parceria. No entanto, quando encontra alguém emocionalmente disponível, começa a criar conflitos, testar o parceiro, desconfiar excessivamente ou se afastar.
Conscientemente, ela quer vínculo. Inconscientemente, algo a empurra para a ruptura.
Ou pense no profissional que trabalha intensamente para crescer, mas quando recebe uma promoção, passa a se sabotar com atrasos, conflitos desnecessários ou decisões impulsivas.
Ou ainda na pessoa que inicia um processo de autocuidado — academia, alimentação equilibrada, organização financeira — mas abandona tudo quando começa a perceber resultados positivos.
O que acontece nesses momentos?
Muitas vezes, estamos diante de um choque entre o desejo de expansão (Eros) e padrões internos de desvalor, culpa ou medo de sucesso (formas contemporâneas de compreender Tânatos).
Instinto de morte existe? Uma leitura contemporânea
Dentro da psicologia moderna, especialmente na Terapia Cognitivo-Comportamental e na Terapia do Esquema, não utilizamos exatamente os termos Eros e Tânatos. No entanto, o fenômeno descrito por Freud continua extremamente atual.
Hoje, compreendemos muitos comportamentos autodestrutivos como resultado de:
– Esquemas iniciais desadaptativos
– Crenças centrais de desvalor
– Medo de abandono
– Vergonha profunda
– Padrões de autopunição
– Sistemas de ameaça hiperativados
Quando um paciente diz: “Eu sempre estrago tudo”, geralmente não há um instinto místico de destruição atuando. Há esquemas de fracasso, abandono ou desamor que se ativam quando a vida começa a dar certo.
Em outras palavras, o que Freud chamou de pulsão de morte pode ser compreendido hoje como padrões internalizados que mantêm a pessoa em estados emocionais familiares, mesmo que dolorosos.
A mente tende a repetir o que conhece. E, às vezes, o sofrimento é o território conhecido.
Por que nos autossabotamos?
A autossabotagem é uma das manifestações mais claras do conflito entre instinto de vida e instinto de morte.
Ela pode ter diversas funções psicológicas.
Primeiro, pode ser uma forma de manter coerência interna. Se alguém carrega a crença profunda de que “não merece ser feliz”, quando algo positivo acontece, isso entra em conflito com sua identidade. Sabotar restaura a coerência interna.
Segundo, pode ser uma tentativa de evitar abandono. Algumas pessoas acreditam, inconscientemente, que se o outro as conhecer profundamente, irá rejeitá-las. Assim, destroem o vínculo antes que o abandono aconteça.
Terceiro, pode ser uma forma de autopunição. Indivíduos com vergonha crônica ou culpa internalizada podem sentir que precisam sofrer para compensar falhas reais ou imaginadas.
Quarto, pode ser uma estratégia de regulação emocional. Comportamentos impulsivos, compulsivos ou destrutivos muitas vezes aliviam temporariamente estados intensos de ansiedade ou vazio.
Nada disso é consciente na maior parte do tempo.
E é exatamente por isso que a pessoa sofre tanto tentando “ter força de vontade”.
O conflito entre viver plenamente e repetir a dor
Existe uma experiência clínica muito delicada que observo em alguns pacientes: eles não querem desaparecer. Eles querem que a dor cesse.
Esse é um ponto fundamental.
O conflito não é entre viver e morrer de forma literal. É entre suportar a dor psíquica ou escapar dela por meio de comportamentos autodestrutivos.
Quando alguém rompe repetidamente relações importantes, abandona projetos significativos ou se envolve em padrões que geram sofrimento, muitas vezes está tentando regular emoções intoleráveis.
O problema é que essas estratégias produzem alívio imediato e dor prolongada.
Esse ciclo é devastador porque reforça a crença de incapacidade.
Eros, Tânatos e os esquemas iniciais desadaptativos
Na Terapia do Esquema, falamos de padrões emocionais profundamente enraizados que se originam na infância ou adolescência.
Esquemas como:
– Abandono
– Desamor
– Defectividade
– Fracasso
– Subjugação
– Autossacrifício excessivo
– Padrões inflexíveis
Esses esquemas podem alimentar comportamentos que parecem autodestrutivos.
Por exemplo, alguém com esquema de abandono pode provocar crises no relacionamento para testar se o outro ficará.
Alguém com esquema de defectividade pode evitar oportunidades profissionais por medo de ser “descoberto”.
Alguém com padrão inflexível pode se exaurir até o colapso físico.
Esses movimentos podem ser compreendidos como a força de Tânatos se infiltrando na tentativa de autopreservação.
Como a Terapia Cognitivo-Comportamental trabalha esse conflito
Na prática clínica, meu trabalho não é combater um instinto de morte, mas compreender e reorganizar padrões.
O processo envolve algumas etapas fundamentais.
Primeiro, identificação dos padrões repetitivos. O paciente começa a perceber quando está entrando em ciclos de autossabotagem.
Segundo, mapeamento das crenças centrais. Muitas vezes encontramos ideias como:
“Eu não sou suficiente.”
“Se eu for feliz, algo ruim vai acontecer.”
“Eu sempre perco as pessoas.”
“Eu não posso relaxar.”
Terceiro, reestruturação cognitiva. Trabalhamos para flexibilizar essas crenças e construir interpretações mais realistas.
Quarto, desenvolvimento de regulação emocional. Técnicas de tolerância ao desconforto e processamento emocional ajudam a reduzir impulsividade.
Quinto, fortalecimento de comportamentos alinhados com valores. Aqui fortalecemos Eros: vínculo, construção, projeto de vida, sentido.
A terapia não elimina conflitos humanos. Mas amplia consciência e capacidade de escolha.
Quando procurar ajuda psicológica?
Alguns sinais indicam que o conflito interno está causando prejuízo significativo:
– Repetição constante dos mesmos erros relacionais
– Sensação de sabotagem recorrente
– Dificuldade em sustentar conquistas
– Autocrítica severa e persistente
– Impulsividade que gera arrependimento
– Sensação de vazio crônico
Se você se identifica com esses padrões, não significa que há algo “errado” com você como pessoa. Significa que existem padrões que precisam ser compreendidos.
E padrões podem ser transformados.
Eros e Tânatos na psicologia moderna: Integração e responsabilidade
Hoje, falamos menos em instinto de morte como força biológica e mais em sistemas emocionais desregulados, esquemas rígidos e estratégias de enfrentamento desadaptativas.
Mas o conceito continua útil como metáfora clínica.
Ele nos lembra que o ser humano é ambivalente. Que desejar crescer não elimina o medo de crescer. Que querer amar não elimina o medo de ser ferido.
A maturidade psicológica não é a ausência de conflito. É a capacidade de reconhecer o conflito e escolher de forma mais consciente.
Como a psicoterapia online pode ajudar a fortalecer o instinto de vida
Na psicoterapia, criamos um espaço estruturado e seguro para explorar esses padrões.
Trabalhamos para:
– Identificar ciclos de autossabotagem
– Compreender a função emocional de comportamentos destrutivos
– Reduzir a vergonha associada à repetição
– Construir estratégias mais saudáveis de regulação
– Desenvolver uma identidade mais integrada
Se você sente que existe um conflito constante entre querer viver plenamente e repetir padrões que te machucam, a psicoterapia pode ser um caminho de reorganização interna.
Atendo adultos em psicoterapia online que desejam compreender seus padrões emocionais e romper ciclos autodestrutivos com base na Terapia Cognitivo-Comportamental.
Ao longo da minha prática clínica, aprendi que o conflito entre Eros e Tânatos raramente é explícito. Ele aparece como procrastinação crônica, relacionamentos instáveis, autocobrança excessiva ou dificuldade em sustentar conquistas.
Mas também aprendi algo fundamental: quando a pessoa compreende seus padrões e desenvolve novas formas de lidar com suas emoções, o instinto de vida ganha força.
Eros não precisa eliminar Tânatos. Precisa apenas deixar de ser silenciado por ele.
Se você percebe que repete ciclos que geram sofrimento e sente que existe um conflito interno difícil de explicar, talvez seja o momento de olhar para isso com profundidade.
A psicoterapia online pode ser um espaço seguro para fortalecer sua capacidade de construir, se vincular e sustentar aquilo que deseja para a sua vida.
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Perguntas Frequentes sobre Eros e Tânatos (Psicologia)
1 - O que significa Eros e Tânatos na psicologia?
Eros e Tânatos são conceitos da psicanálise que representam, respectivamente, o instinto de vida e o instinto de morte. Eros está associado à preservação, ao amor e à construção. Tânatos está relacionado à agressividade, à destruição e à repetição do sofrimento.
2 - Qual é a diferença entre instinto de vida e instinto de morte?
O instinto de vida está ligado à busca por conexão, crescimento e manutenção da existência. O instinto de morte refere-se à tendência a comportamentos destrutivos, autossabotagem e agressividade, que podem ser direcionados ao outro ou a si mesmo.
3 - O instinto de morte explica a autossabotagem?
Na teoria psicanalítica, a autossabotagem pode ser entendida como manifestação do instinto de morte. Na psicologia contemporânea, ela é compreendida como resultado de esquemas emocionais, crenças disfuncionais e padrões de regulação inadequados.
4 - Eros e Tânatos ainda são relevantes na psicologia moderna?
Embora os termos sejam originários da psicanálise, o conflito entre forças de construção e destruição continua sendo observado na clínica, especialmente na compreensão de padrões autodestrutivos e ambivalência emocional.
5 - Como a terapia ajuda em comportamentos autodestrutivos?
A terapia ajuda a identificar padrões repetitivos, modificar crenças centrais, desenvolver regulação emocional e fortalecer comportamentos alinhados com valores pessoais, reduzindo a autossabotagem.
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DR. OSVALDO MARCHESI JUNIOR
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