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Tédio, Álcool e Cérebro: Por que beber vira uma fuga silenciosa (e como a psicoterapia explica isso)

Artigo Publicado: 05/02/2026
Por Osvaldo Marchesi Junior, Psicólogo | CRP 06/186.890 – Terapia Cognitivo-Comportamental

Tédio Álcool e Cérebro - Osvaldo Marchesi Junior - NeuroFlux

Muitas pessoas que chegam até mim para psicoterapia não dizem, de início, que estão tristes, deprimidas ou desesperadas. Elas dizem algo diferente — e muito mais sutil:

Eu não estou mal… só fico entediado.
Quando não tem nada para fazer, acabo bebendo.
É como se o tempo não passasse.

Essa fala costuma vir acompanhada de um certo constrangimento, como se o tédio não fosse um motivo “válido” para buscar ajuda. Mas, do ponto de vista psicológico e neurobiológico, o tédio é um dos estados emocionais mais mal compreendidos — e um dos mais perigosos quando se torna crônico.

Neste artigo, quero te explicar, de forma clara e sem moralismo:

• O que acontece no cérebro quando sentimos tédio
• Por que o álcool funciona tão bem como válvula de escape
• Quando esse padrão deixa de ser casual e vira um risco psicológico
• E como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) trabalha isso na prática

Tudo isso a partir da minha experiência clínica, com exemplos reais do cotidiano, e com base no que a psicologia e a neurociência já sabem sobre regulação emocional, dopamina e comportamento de fuga.

O que é o tédio do ponto de vista psicológico?

O tédio não é simplesmente “falta do que fazer”. Ele é um estado emocional de subestimulação associada à perda de sentido, no qual o cérebro percebe que:

• O ambiente não oferece desafio suficiente
• A atividade atual não gera engajamento
• Não há recompensa emocional clara

Em termos simples: o cérebro quer investir energia, mas não encontra onde investir.

O tédio não é falta de estímulo — é falta de significado

Duas pessoas podem estar na mesma situação:

• Uma profundamente entediada
• Outra totalmente absorvida

A diferença não está na tarefa em si, mas na relação subjetiva com ela.

Na clínica, vejo isso com frequência:

• Pessoas altamente funcionais
• Produtivas
• Inteligentes
• Mas vivendo rotinas excessivamente automáticas

O tédio surge quando a vida entra em modo repetição, sem novidade, sem desafio emocional e sem sensação de propósito.

Diferença entre tédio, apatia e anedonia

Essa distinção é importante — inclusive para evitar diagnósticos errados.

• Tédio: há energia psíquica disponível, mas sem direção.
• Apatia: há redução global de motivação.
• Anedonia: há dificuldade real de sentir prazer.

No tédio, a pessoa quer sentir algo. Na anedonia, a pessoa não consegue.

Por isso, o tédio costuma gerar:

• Inquietação
• Irritabilidade leve
• Busca compulsiva por estímulos

E é exatamente aí que o álcool entra em cena.

O que acontece no cérebro quando o tédio se prolonga?

Do ponto de vista neuropsicológico, o tédio é tudo menos passivo.

Queda de dopamina e busca por recompensa

O tédio está associado a uma redução da dopamina basal, neurotransmissor ligado à motivação e à expectativa de recompensa.

Isso não significa ausência total de prazer, mas sim:

• Dificuldade de se engajar
• Sensação de “nada me puxa
• Baixa antecipação emocional

O cérebro, então, entra em modo de busca.

A Default Mode Network entra em hiperatividade

Quando não há estímulo externo relevante, aumenta a ativação da Default Mode Network (DMN), uma rede cerebral ligada a:

• Devaneio
• Ruminação
• Pensamentos autorreferentes
• Simulações mentais do passado e do futuro

É por isso que, no tédio:

• O tempo parece passar mais devagar
• A mente “viaja
• Pensamentos repetitivos surgem

Em pessoas ansiosas, esse estado rapidamente se torna desconfortável.

O tédio como sinal de erro emocional

O cérebro interpreta o tédio como um estado aversivo leve. Regiões como o córtex cingulado anterior indicam que algo está errado.

A mensagem implícita é:

Isso não vale meu investimento cognitivo.

O tédio existe para empurrar o organismo à mudança. O problema é como essa mudança acontece.

Por que o álcool funciona tão bem como válvula de escape?

Aqui entra um ponto central da clínica.

O álcool não entra como prazer sofisticado. Ele entra como regulador emocional rápido e eficiente demais.

O que o álcool faz no cérebro entediado

Quando alguém bebe em um estado de tédio, três coisas acontecem quase imediatamente:

1. Aumento artificial de dopamina
2. Redução da autoconsciência (inibição do córtex pré-frontal)
3. Diminuição do desconforto emocional difuso

O efeito subjetivo costuma ser descrito assim:

• “Agora algo está acontecendo
• “Fico menos preso aos pensamentos
• “O tempo passa mais rápido

Ou seja, o álcool resolve exatamente o que o tédio gera.

Beber por tédio não é falta de controle — é aprendizagem emocional

Esse é um ponto fundamental.

O cérebro aprende por associação: Tédio → Álcool → Alívio

Se esse ciclo se repete, ele se automatiza.

Com o tempo, a pessoa não bebe para comemorar. Ela bebe para parar de sentir.

O reforço negativo silencioso

Do ponto de vista comportamental, isso é reforço negativo:

• Remove um estado aversivo (tédio, vazio, inquietação)
• Aumenta a probabilidade de repetir o comportamento

E isso acontece mesmo em pessoas sem histórico de dependência.

Quando o tédio vira um risco psicológico real?

O problema não é sentir tédio ocasionalmente. O risco aparece quando ele se torna crônico.

Sinais clínicos comuns:

• Intolerância ao silêncio
• Uso constante de estímulos rápidos (álcool, celular, comida)
• Dificuldade de sustentar estados neutros
• Sensação de vazio quando não há distração

Na prática clínica, ouço frases como:

Eu não sei ficar sem fazer nada.
Quando paro, fico estranho.

O álcool passa a ocupar um lugar funcional na vida emocional da pessoa.

O papel da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)

Na TCC, o foco não é tirar o álcool à força. É entender a função que ele cumpre.

Identificando a função do comportamento

Perguntas centrais:

• O que o álcool regula?
• Em que momentos ele aparece?
• Que emoções são evitadas?

Muitas vezes, o problema não é o álcool — é a incapacidade aprendida de lidar com estados internos neutros ou vazios.

Reconstruindo repertório de prazer e engajamento

A TCC trabalha para:

• Ampliar fontes reais de recompensa
• Reconstruir tolerância ao tédio
• Diferenciar prazer químico de prazer psicológico

Isso envolve:

• Ativação comportamental
• Reestruturação cognitiva
• Trabalho com valores e significado

Aprender a ficar sem anestesia

Um dos trabalhos mais delicados da psicoterapia é ajudar a pessoa a:

• Sustentar o silêncio
• Atravessar o vazio
• Perceber que nem todo desconforto precisa ser eliminado

Isso não é resignação. É maturidade emocional.

Psicoterapia online funciona para esse tipo de problema?

Sim. E funciona muito bem.

A psicoterapia online permite:

• Acompanhamento contínuo
• Análise do padrão no contexto real da vida da pessoa
• Intervenções práticas e graduais

Na minha prática clínica, muitos pacientes começam achando que o problema é “beber demais” e descobrem que o núcleo está em tédio emocional, automatização e falta de presença.

Quando procurar ajuda psicológica?

Você não precisa esperar “perder o controle”.

A psicoterapia é indicada se você percebe:

• Uso de álcool como regulador emocional
• Dificuldade de ficar consigo mesmo
• Sensação persistente de vazio
• Vida emocional excessivamente automática

Buscar ajuda não é exagero. É prevenção.

Se você se reconheceu em partes deste texto, talvez o álcool não seja o problema central — mas sim a solução que seu cérebro encontrou para lidar com o tédio, o vazio ou a falta de sentido.

Isso não é fraqueza. É aprendizado emocional.

Sou psicólogo, trabalho com Terapia Cognitivo-Comportamental e atendo online pessoas que lidam com ansiedade, tédio emocional e padrões de uso de álcool como regulação.

Agende uma sessão online de psicoterapia. Às vezes, entender o que está por trás já muda tudo.

Perguntas Frequentes sobre Tédio e Consumo de Álcool

1 - O tédio pode levar ao uso problemático de álcool?

Sim. O tédio crônico reduz dopamina e aumenta a busca por alívio rápido. O álcool funciona como regulador emocional eficiente, o que pode reforçar padrões automáticos de uso, mesmo sem dependência inicial.

2 - Beber por tédio é sinal de alcoolismo?

Não necessariamente. Mas pode indicar um uso funcional do álcool para regular emoções, o que aumenta o risco de escalada do consumo ao longo do tempo.

3 - Qual a diferença entre beber socialmente e beber para aliviar emoções?

Beber socialmente está ligado a contexto e prazer. Beber para aliviar emoções ocorre em solidão, rotina ou estados de desconforto interno, com foco em anestesiar sensações.

4 - A TCC ajuda quem bebe para lidar com o tédio?

Sim. A TCC trabalha a função do comportamento, amplia repertório de prazer, desenvolve tolerância emocional e reduz a dependência de soluções químicas rápidas.

5 - Psicoterapia online é eficaz para quem bebe para se livrar do tédio?

Sim. A psicoterapia online permite intervenções práticas, acompanhamento contínuo e aplicação direta no cotidiano, com eficácia semelhante ao atendimento presencial.

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