Muitas pessoas que chegam até mim para psicoterapia não dizem, de início, que estão tristes, deprimidas ou desesperadas. Elas dizem algo diferente — e muito mais sutil:
“Eu não estou mal… só fico entediado.”
“Quando não tem nada para fazer, acabo bebendo.”
“É como se o tempo não passasse.”
Essa fala costuma vir acompanhada de um certo constrangimento, como se o tédio não fosse um motivo “válido” para buscar ajuda. Mas, do ponto de vista psicológico e neurobiológico, o tédio é um dos estados emocionais mais mal compreendidos — e um dos mais perigosos quando se torna crônico.
Neste artigo, quero te explicar, de forma clara e sem moralismo:
• O que acontece no cérebro quando sentimos tédio
• Por que o álcool funciona tão bem como válvula de escape
• Quando esse padrão deixa de ser casual e vira um risco psicológico
• E como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) trabalha isso na prática
Tudo isso a partir da minha experiência clínica, com exemplos reais do cotidiano, e com base no que a psicologia e a neurociência já sabem sobre regulação emocional, dopamina e comportamento de fuga.
O que é o tédio do ponto de vista psicológico?
O tédio não é simplesmente “falta do que fazer”. Ele é um estado emocional de subestimulação associada à perda de sentido, no qual o cérebro percebe que:
• O ambiente não oferece desafio suficiente
• A atividade atual não gera engajamento
• Não há recompensa emocional clara
Em termos simples: o cérebro quer investir energia, mas não encontra onde investir.
O tédio não é falta de estímulo — é falta de significado
Duas pessoas podem estar na mesma situação:
• Uma profundamente entediada
• Outra totalmente absorvida
A diferença não está na tarefa em si, mas na relação subjetiva com ela.
Na clínica, vejo isso com frequência:
• Pessoas altamente funcionais
• Produtivas
• Inteligentes
• Mas vivendo rotinas excessivamente automáticas
O tédio surge quando a vida entra em modo repetição, sem novidade, sem desafio emocional e sem sensação de propósito.
Diferença entre tédio, apatia e anedonia
Essa distinção é importante — inclusive para evitar diagnósticos errados.
• Tédio: há energia psíquica disponível, mas sem direção.
• Apatia: há redução global de motivação.
• Anedonia: há dificuldade real de sentir prazer.
No tédio, a pessoa quer sentir algo. Na anedonia, a pessoa não consegue.
Por isso, o tédio costuma gerar:
• Inquietação
• Irritabilidade leve
• Busca compulsiva por estímulos
E é exatamente aí que o álcool entra em cena.
O que acontece no cérebro quando o tédio se prolonga?
Do ponto de vista neuropsicológico, o tédio é tudo menos passivo.
Queda de dopamina e busca por recompensa
O tédio está associado a uma redução da dopamina basal, neurotransmissor ligado à motivação e à expectativa de recompensa.
Isso não significa ausência total de prazer, mas sim:
• Dificuldade de se engajar
• Sensação de “nada me puxa”
• Baixa antecipação emocional
O cérebro, então, entra em modo de busca.
A Default Mode Network entra em hiperatividade
Quando não há estímulo externo relevante, aumenta a ativação da Default Mode Network (DMN), uma rede cerebral ligada a:
• Devaneio
• Ruminação
• Pensamentos autorreferentes
• Simulações mentais do passado e do futuro
É por isso que, no tédio:
• O tempo parece passar mais devagar
• A mente “viaja”
• Pensamentos repetitivos surgem
Em pessoas ansiosas, esse estado rapidamente se torna desconfortável.
O tédio como sinal de erro emocional
O cérebro interpreta o tédio como um estado aversivo leve. Regiões como o córtex cingulado anterior indicam que algo está errado.
A mensagem implícita é:
“Isso não vale meu investimento cognitivo.”
O tédio existe para empurrar o organismo à mudança. O problema é como essa mudança acontece.
Por que o álcool funciona tão bem como válvula de escape?
Aqui entra um ponto central da clínica.
O álcool não entra como prazer sofisticado. Ele entra como regulador emocional rápido e eficiente demais.
O que o álcool faz no cérebro entediado
Quando alguém bebe em um estado de tédio, três coisas acontecem quase imediatamente:
1. Aumento artificial de dopamina
2. Redução da autoconsciência (inibição do córtex pré-frontal)
3. Diminuição do desconforto emocional difuso
O efeito subjetivo costuma ser descrito assim:
• “Agora algo está acontecendo”
• “Fico menos preso aos pensamentos”
• “O tempo passa mais rápido”
Ou seja, o álcool resolve exatamente o que o tédio gera.
Beber por tédio não é falta de controle — é aprendizagem emocional
Esse é um ponto fundamental.
O cérebro aprende por associação: Tédio → Álcool → Alívio
Se esse ciclo se repete, ele se automatiza.
Com o tempo, a pessoa não bebe para comemorar. Ela bebe para parar de sentir.
O reforço negativo silencioso
Do ponto de vista comportamental, isso é reforço negativo:
• Remove um estado aversivo (tédio, vazio, inquietação)
• Aumenta a probabilidade de repetir o comportamento
E isso acontece mesmo em pessoas sem histórico de dependência.
Quando o tédio vira um risco psicológico real?
O problema não é sentir tédio ocasionalmente. O risco aparece quando ele se torna crônico.
Sinais clínicos comuns:
• Intolerância ao silêncio
• Uso constante de estímulos rápidos (álcool, celular, comida)
• Dificuldade de sustentar estados neutros
• Sensação de vazio quando não há distração
Na prática clínica, ouço frases como:
“Eu não sei ficar sem fazer nada.”
“Quando paro, fico estranho.”
O álcool passa a ocupar um lugar funcional na vida emocional da pessoa.
O papel da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)
Na TCC, o foco não é tirar o álcool à força. É entender a função que ele cumpre.
Identificando a função do comportamento
Perguntas centrais:
• O que o álcool regula?
• Em que momentos ele aparece?
• Que emoções são evitadas?
Muitas vezes, o problema não é o álcool — é a incapacidade aprendida de lidar com estados internos neutros ou vazios.
Reconstruindo repertório de prazer e engajamento
A TCC trabalha para:
• Ampliar fontes reais de recompensa
• Reconstruir tolerância ao tédio
• Diferenciar prazer químico de prazer psicológico
Isso envolve:
• Ativação comportamental
• Reestruturação cognitiva
• Trabalho com valores e significado
Aprender a ficar sem anestesia
Um dos trabalhos mais delicados da psicoterapia é ajudar a pessoa a:
• Sustentar o silêncio
• Atravessar o vazio
• Perceber que nem todo desconforto precisa ser eliminado
Isso não é resignação. É maturidade emocional.
Psicoterapia online funciona para esse tipo de problema?
Sim. E funciona muito bem.
A psicoterapia online permite:
• Acompanhamento contínuo
• Análise do padrão no contexto real da vida da pessoa
• Intervenções práticas e graduais
Na minha prática clínica, muitos pacientes começam achando que o problema é “beber demais” e descobrem que o núcleo está em tédio emocional, automatização e falta de presença.
Quando procurar ajuda psicológica?
Você não precisa esperar “perder o controle”.
A psicoterapia é indicada se você percebe:
• Uso de álcool como regulador emocional
• Dificuldade de ficar consigo mesmo
• Sensação persistente de vazio
• Vida emocional excessivamente automática
Buscar ajuda não é exagero. É prevenção.
Se você se reconheceu em partes deste texto, talvez o álcool não seja o problema central — mas sim a solução que seu cérebro encontrou para lidar com o tédio, o vazio ou a falta de sentido.
Isso não é fraqueza. É aprendizado emocional.
Sou psicólogo, trabalho com Terapia Cognitivo-Comportamental e atendo online pessoas que lidam com ansiedade, tédio emocional e padrões de uso de álcool como regulação.
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Perguntas Frequentes sobre Tédio e Consumo de Álcool
1 - O tédio pode levar ao uso problemático de álcool?
Sim. O tédio crônico reduz dopamina e aumenta a busca por alívio rápido. O álcool funciona como regulador emocional eficiente, o que pode reforçar padrões automáticos de uso, mesmo sem dependência inicial.
2 - Beber por tédio é sinal de alcoolismo?
Não necessariamente. Mas pode indicar um uso funcional do álcool para regular emoções, o que aumenta o risco de escalada do consumo ao longo do tempo.
3 - Qual a diferença entre beber socialmente e beber para aliviar emoções?
Beber socialmente está ligado a contexto e prazer. Beber para aliviar emoções ocorre em solidão, rotina ou estados de desconforto interno, com foco em anestesiar sensações.
4 - A TCC ajuda quem bebe para lidar com o tédio?
Sim. A TCC trabalha a função do comportamento, amplia repertório de prazer, desenvolve tolerância emocional e reduz a dependência de soluções químicas rápidas.
5 - Psicoterapia online é eficaz para quem bebe para se livrar do tédio?
Sim. A psicoterapia online permite intervenções práticas, acompanhamento contínuo e aplicação direta no cotidiano, com eficácia semelhante ao atendimento presencial.
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DR. OSVALDO MARCHESI JUNIOR
Psicólogo em São Paulo - CRP - 06/186.890
Atendimentos Psicológicos On-line e Presenciais para pacientes no Brasil e no exterior.
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e Hipnoterapia.
Whatsapp: +55 11 96628-5460