Como psicólogo, costumo dizer que antes de aprender matemática, história ou ciências, o ser humano aprende a se narrar. Aprende a dar nome às coisas, aos sentimentos, às experiências e, aos poucos, aprende também a dar nome a si mesmo. É nesse ponto que a linguagem deixa de ser apenas um meio de comunicação e passa a ser uma ferramenta central de desenvolvimento, aprendizagem e construção da identidade.
No consultório, observo diariamente crianças, adolescentes e adultos que não apresentam apenas dificuldades cognitivas ou acadêmicas, mas dificuldades de organizar o pensamento, expressar emoções e compreender o mundo simbólico ao seu redor. Em grande parte dos casos, essas dificuldades estão diretamente ligadas ao modo como a linguagem se desenvolveu — ou não se desenvolveu — ao longo da vida.
Neste artigo, explico de forma clara e aprofundada qual é o papel da linguagem no desenvolvimento humano e na aprendizagem, como ela se forma, quais fatores influenciam esse processo e por que a linguagem ocupa um lugar central na educação e na psicoterapia, especialmente dentro da perspectiva da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC).
A linguagem como expressão do pensamento e da identidade
A linguagem é, ao mesmo tempo, meio e resultado do pensamento. Não pensamos primeiro para depois falar; em muitos casos, pensamos falando internamente. Organizamos a realidade por meio de palavras, símbolos, imagens e gestos. É a linguagem que nos permite transformar experiências brutas em significados.
Quando uma criança aprende a palavra “medo”, por exemplo, ela não aprende apenas um som ou um conceito abstrato. Ela aprende a reconhecer uma experiência interna, diferenciá-la de outras emoções e, principalmente, comunicá-la ao outro. Esse processo é fundamental para o desenvolvimento emocional e social.
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, entendemos que a forma como a pessoa se descreve, se explica e interpreta os eventos da vida está diretamente relacionada às suas emoções e comportamentos. Frases internas como:
• “Eu não sou capaz”.
• “Sempre dá errado”.
• “Ninguém gosta de mim”.
Não são apenas pensamentos soltos; são narrativas linguísticas que moldam a identidade.
Costumo dizer aos meus pacientes que mudar a forma de pensar passa, necessariamente, por mudar a forma de falar consigo mesmo. A linguagem não apenas expressa quem somos — ela ajuda a definir quem acreditamos ser.
O papel da linguagem no desenvolvimento humano
A linguagem é uma capacidade biologicamente prevista, mas ambientalmente construída. O ser humano nasce com um aparato neurológico preparado para desenvolver a linguagem, mas esse potencial só se concretiza por meio da interação com o ambiente.
Linguagem: Inata, mas dependente da interação
Do ponto de vista do desenvolvimento, podemos afirmar que a linguagem é inata no sentido de que o cérebro humano possui áreas especializadas para sua aquisição. No entanto, sem estimulação, troca afetiva, comunicação e exposição ao ambiente linguístico, esse potencial não se desenvolve plenamente.
Em outras palavras: não basta nascer humano para falar — é preciso conviver, ouvir, interagir e ser escutado.
Fases do desenvolvimento da linguagem
Didaticamente, o desenvolvimento da linguagem pode ser dividido em dois grandes momentos: pré-linguístico e linguístico.
Desenvolvimento pré-linguístico
Essa fase ocorre antes da fala propriamente dita, mas é extremamente rica do ponto de vista comunicativo.
• Por volta dos 2 meses
O bebê se comunica por meio do choro e de movimentos corporais. O choro já começa a se diferenciar conforme a necessidade (fome, desconforto, sono).
• Entre 2 e 3 meses
Surgem os sons guturais e o gorjeio. O bebê experimenta a própria voz e reage à presença do outro.
• Entre 4 e 7 meses
Aparecem os balbucios, com repetição de sílabas simples. Esse é um marco importante, pois indica o início da organização sonora da linguagem.
Desenvolvimento linguístico
• Entre 8 e 12 meses
Surgem os primeiros vocábulos, geralmente substantivos e verbos ligados ao cotidiano da criança.
• Entre 12 e 18 meses
A criança começa a unir duas palavras. O vocabulário pode variar entre 10 e 50 palavras.
• Por volta dos 2 anos
Aparecem frases com 3 a 4 palavras. Inicia-se o uso de pronomes pessoais. O vocabulário pode chegar a 200 ou 300 palavras.
• Aos 2 anos e meio
A criança já utiliza aproximadamente 500 palavras.
• Por volta dos 3 anos
O vocabulário pode chegar a 900 palavras, e a criança compreende grande parte do que ouve.
• Entre 4 e 5 anos
A linguagem se torna semelhante à do adulto, com articulação da maioria dos sons da língua.
Essas etapas são referências, não regras rígidas. Cada criança possui seu ritmo, mas desvios muito acentuados podem impactar diretamente a aprendizagem e o desenvolvimento emocional.
Principais influências sobre o desenvolvimento da linguagem
O desenvolvimento da linguagem não depende de um único fator. Ele resulta da interação entre aspectos biológicos, emocionais, sociais e educacionais.
Hereditariedade e fatores genéticos
A genética influencia o desenvolvimento neurológico, a audição, a motricidade oral e a predisposição para determinadas dificuldades. No entanto, a genética não determina sozinha o sucesso ou o fracasso no desenvolvimento da linguagem.
Família e ambiente direto
A família é o primeiro ambiente linguístico da criança. A qualidade da comunicação, a escuta, o diálogo e a validação emocional exercem um papel decisivo.
Uma criança que cresce em um ambiente onde se conversa, se nomeiam emoções e se explicam experiências desenvolve um repertório linguístico e emocional mais amplo.
Ambiente social e cultural
A linguagem é também um fenômeno cultural. Brincadeiras, histórias, músicas, tecnologia e interações sociais ampliam o vocabulário e a compreensão simbólica.
Escolaridade
O ambiente escolar funciona como um potente mediador da linguagem e do pensamento. É na escola que a criança entra em contato com a linguagem formal, acadêmica e abstrata, fundamental para o aprendizado sistematizado.
Tipos de linguagem e suas funções no desenvolvimento
Linguagem verbal
A linguagem verbal é construída por palavras, faladas ou escritas. É essencial para o pensamento lógico, a argumentação e a aprendizagem formal.
Exemplos:
• Conversas.
• Leitura.
• Escrita.
• Narrativas.
Linguagem não verbal
A linguagem não verbal comunica sem palavras. Inclui gestos, expressões faciais, postura corporal, imagens, desenhos e sinais, como a Libras.
Antes de falar, a criança já se comunica intensamente por meio do corpo.
Linguagem mista
A linguagem mista combina elementos verbais e não verbais, como ocorre nas histórias em quadrinhos, vídeos, apresentações multimodais e recursos visuais.
Na aprendizagem, esse tipo de linguagem favorece a compreensão e a memorização.
A relação entre linguagem, educação e aprendizagem
O espaço escolar é um dos principais contextos de mediação da linguagem. Aprender não é apenas memorizar informações, mas compreender, elaborar, expressar e integrar conhecimentos.
Sem linguagem, não há aprendizagem significativa. É por meio dela que o aluno:
• Formula perguntas.
• Compreende instruções.
• Organiza ideias.
• Explica o que aprendeu.
Quando a linguagem é limitada, a aprendizagem também se torna limitada.
A linguagem na perspectiva da Terapia Cognitivo-Comportamental
Na TCC, entendemos que pensamentos, emoções e comportamentos estão interligados. A linguagem é o meio pelo qual os pensamentos se organizam.
Pensamentos automáticos são, na prática, frases internas. Quando ajudamos o paciente a identificá-las, questioná-las e reformulá-las, estamos também trabalhando sua linguagem interna.
A psicoeducação, tão presente na TCC, é uma forma de ampliar o repertório linguístico e cognitivo do paciente, permitindo novas interpretações da realidade.
Quando a linguagem não se desenvolve como esperado
Dificuldades no desenvolvimento da linguagem podem gerar impactos significativos:
• Dificuldades de aprendizagem.
• Baixa autoestima.
• Ansiedade.
• Problemas de socialização.
• Frustração emocional.
É importante compreender que essas dificuldades não definem a inteligência ou o valor do sujeito, mas indicam a necessidade de apoio e intervenção adequados.
Como a psicoterapia pode auxiliar no desenvolvimento da linguagem e da aprendizagem
Na psicoterapia, especialmente na TCC, trabalhamos:
• Organização do pensamento.
• Nomeação de emoções.
• Construção de narrativas mais funcionais.
• Ampliação do vocabulário emocional e cognitivo.
Em crianças, adolescentes e adultos, a psicoterapia pode ajudar a transformar experiências confusas em histórias compreensíveis — e isso tem um impacto profundo na aprendizagem e na vida emocional.
A linguagem como eixo do desenvolvimento humano
Podemos afirmar, com segurança, que a linguagem está no centro do processo educacional e do desenvolvimento humano. Ela não apenas transmite conhecimento, mas constrói significado, identidade e possibilidades de ação no mundo.
Se você percebe dificuldades de aprendizagem, comunicação ou expressão emocional — em você, em seu filho ou em alguém próximo — a psicoterapia pode ser um espaço seguro para reorganizar não apenas o pensamento, mas a forma de se relacionar consigo mesmo e com o mundo.
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Perguntas Frequentes sobre Linguagem, Desenvolvimento e Aprendizagem
1. Qual é o papel da linguagem no desenvolvimento humano?
A linguagem permite organizar o pensamento, expressar emoções, construir identidade e acessar o conhecimento ao longo da vida.
2. Quais são as fases do desenvolvimento da linguagem infantil?
O desenvolvimento ocorre em fases pré-linguísticas e linguísticas, desde o choro até a linguagem semelhante à do adulto entre 4 e 5 anos.
3. Como a linguagem influencia a aprendizagem escolar?
A linguagem é a ferramenta central para compreender conteúdos, formular ideias e expressar o que foi aprendido.
4. O ambiente familiar interfere no desenvolvimento da linguagem?
Sim. A qualidade da comunicação, do diálogo e da validação emocional influencia diretamente o desenvolvimento linguístico.
5. A psicoterapia pode ajudar dificuldades de linguagem e aprendizagem?
Sim. A psicoterapia auxilia na organização do pensamento, na expressão emocional e na construção de novas narrativas cognitivas.
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DR. OSVALDO MARCHESI JUNIOR
Psicólogo em São Paulo - CRP - 06/186.890
Atendimentos Psicológicos On-line e Presenciais para pacientes no Brasil e no exterior.
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e Hipnoterapia.
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