O Tabu que ninguém quer ver
Existe um fato tão óbvio e tão incômodo que a nossa civilização inteira se organizou para não olhar para ele: o ser humano moderno vive contra as leis que sustentam a própria vida.
E o mais trágico é que acreditamos que isso é normal.
Acreditamos que sempre foi assim.
E muitos se ressentem da vida — como se a vida fosse o problema — sem perceber que o sofrimento nasce do sistema, não da existência.
O que está em jogo não é só ecologia ou saúde mental.
É a fratura entre a lei natural de autoconservação — vigente há 4,5 bilhões de anos — e a lei social de dominação, que tem apenas alguns milênios, mas governa tudo.
Essa fratura criou uma sombra coletiva tão profunda que se tornou o “ar que respiramos”.
O tabu perfeito. Aquilo que ninguém quer ver.
A Origem da Fratura — Quando abandonamos o Ciclo da Vida
Por mais de 99% da história humana, vivemos em sociedades que respeitavam a lei natural de autoconservação: o ciclo da vida, o ritmo da Terra, a reciprocidade ecológica, a interdependência entre todas as espécies.
Essas sociedades:
• Não acumulavam além do necessário.
• Não dominavam pela força.
• Não tinham hierarquias rígidas
• Não competiam pelo infinito.
• Não se percebiam separadas da natureza.
Não havia ego dividido.
Não havia sombra coletiva.
Não havia ressentimento contra a própria existência.
Tudo começou a mudar há cerca de 12 mil anos, com a ascensão dos povos indo-europeus — os chamados Ários. Esses grupos trouxeram um novo mito fundador:
• Guerreiros celestes, não divindades da terra.
• Hierarquias verticais, não redes circulares.
• Expansão, não equilíbrio.
• Propriedade, não uso.
• Crescimento, não regeneração.
Foi a primeira grande inversão civilizacional.
A natureza deixou de ser Mãe. Passou a ser Recurso.
E o ser humano deixou de ser parte do ciclo. Passou a ser dominador.
O que nasceu ali foi o ego heroico — e com ele, a sombra.
A Sombra Coletiva — A Civilização que se ressente da Vida
Quando uma civilização abandona a lei natural, ela rompe o vínculo que sustentava sua psique.
Nasce uma sombra coletiva — uma espécie de inconsciente da cultura — formada por tudo aquilo que foi reprimido:
• A conexão com o corpo.
• A limitação natural.
• A interdependência.
• A vulnerabilidade.
• A circularidade.
• O cuidado.
• O ritmo orgânico.
Para manter a repressão funcionando, foi necessário criar um novo mito, poderoso e sedutor:
O Self Made Man
a fantasia de que o indivíduo vence sozinho,
cresce infinitamente,
se autocria do zero,
não precisa de ninguém,
e pode controlar a natureza.
Este mito é o motor psicológico do sistema atual.
Ele sustenta economias, políticas, tecnologias e narrativas.
Mas ele tem um custo devastador: culpa, exaustão, ansiedade, depressão e vazio existencial.
Quando o mito exige o impossível — crescer infinitamente num planeta finito — cada pessoa passa a acreditar que o problema é ela.
Que ela é insuficiente. Que não produz o bastante. Que não se supera o bastante.
E nasce o ressentimento contra a própria vida.
A Doença da Civilização — O corpo grita o que a Cultura reprime
O sistema é linear. A natureza é circular.
Essa incompatibilidade cria sintomas psíquicos e ecológicos idênticos, porque ambos derivam da mesma fratura.
No indivíduo:
• Burnout.
• Ansiedade crônica.
• Compulsões.
• Dissociações.
• Perda de sentido.
• Hiperprodutividade como negação da morte.
• Melancolia como saudade do vínculo com a vida.
Na civilização:
• Esgotamento de recursos.
• Colapso de ecossistemas.
• Quebra dos ciclos naturais.
• Aumento de catástrofes climáticas.
• Desigualdade explosiva.
• Sensação crescente de instabilidade.
Não é coincidência. É sintonia.
O que acontece no planeta está acontecendo dentro de nós — e vice-versa.
A lei natural está sendo violada em todas as escalas.
O Recalque Civilizacional — O Tabu da Autoconservação
Por que ninguém percebe isso?
Porque admitir o problema exige derrubar todo o mito moderno.
Seria reconhecer que:
• O crescimento infinito é impossível.
• A competição é uma distorção recente.
• A natureza não é inimiga.
• O indivíduo não é autossuficiente.
• O consumo não é liberdade.
• O sistema econômico é antinatural.
• O mito do self made man é uma ficção.
Isso desmontaria a estrutura psicológica que sustenta a civilização.
Por isso se recalca.
Por isso se reprime.
Por isso ninguém quer ver.
Ao esconder o problema, preservamos o mito — mas destruímos o planeta.
O Julgamento de Temis — O Limite que não pode ser evitado
Na mitologia grega, Temis representa:
• A ordem natural.
• A justiça cósmica.
• O equilíbrio entre todas as forças.
• O retorno inevitável ao ciclo.
Ela não é punitiva. Ela é regulatória.
Toda vez que a civilização tenta dominar a vida, Temis retorna:
• Com crises.
• Com limites.
• Com ajustes.
• Com reequilíbrios.
Nenhum império dominou 100% porque a lei natural corrige excessos.
Sempre houve o imponderável: pragas, secas, quedas, revoltas, colapsos, renascimentos.
E agora, mais uma vez, a balança começa a pesar.
A prova científica do desequilíbrio atual
O que antes era mito e intuição, hoje é medida matemática. O diagnóstico é objetivo: estamos ultrapassando a capacidade biológica do planeta.
Dados da Global Footprint Network mostram que:
1. A humanidade consome o equivalente a quase duas Terras
Nos cálculos mais recentes da Pegada Ecológica global, estamos usando cerca de:
1,8 planetas — ou seja, 180% da capacidade anual de regeneração da Terra.
Isto significa que gastamos em um ano recursos que só se regenerariam em quase dois.
2. Estamos vivendo no “cheque especial ecológico” permanente
Todos os anos, o Overshoot Day — o dia em que esgotamos o que o planeta poderia regenerar — chega mais cedo.
Isso revela um déficit crescente, não pontual.
3. A biocapacidade global está diminuindo
Enquanto a população aumenta e o consumo se acelera, a capacidade regenerativa da biosfera cai devido a:
• Destruição de solos.
• Perda de florestas.
• Acidificação dos oceanos.
• Colapso da biodiversidade.
A equação é simples e implacável: mais demanda + menos regeneração = ruptura sistêmica.
O Futuro — Colapso ou Consciência?
Não existe terceira opção.
Ou corrigimos voluntariamente, com consciência —
e isso exige um novo paradigma,
uma nova psicologia,
uma nova ecologia,
uma nova mitologia…
…ou a correção será imposta pela lei natural.
E ela nunca erra.
A autoconservação não é uma escolha moral. É uma lei ecológica universal, impossível de ser violada por muito tempo.
Se não mudarmos:
• A psique colapsa.
• A economia colapsa.
• Os ecossistemas colapsam.
• A civilização se reinicia sob trauma.
Mas existe outra saída.
O Retorno da Consciência Ancestral — A Integração Psíquica
Não se trata de voltar a viver como há 12 mil anos.
Isso seria impossível — e desnecessário.
Trata-se de restaurar o princípio que foi perdido: a lei natural de autoconservação.
Isso significa:
• Trocar crescimento por regeneração.
• Competição por cooperação.
• Ego inflado por Self integrado.
• Linearidade por circularidade.
• Dominação por reciprocidade.
• Consumo por presença.
• Ilusão por realidade.
O futuro precisa da coragem do passado e da consciência do presente.
A expansão que a civilização precisa não é econômica.
É de consciência.
De volta para Casa
O mundo moderno vive numa bolha — uma matrix cultural que nos convenceu de que a vida é uma guerra, que segurança vem do acúmulo, que valor vem da performance, e que a natureza é um obstáculo a ser vencido.
Esta é a maior ilusão da história humana.
A única possibilidade de sobrevivência — individual e coletiva — está em recuperar o princípio mais antigo da Terra:
A lei da autoconservação.
A lei que não muda.
A lei que sustenta a vida desde o início.
Não precisamos inventar nada novo.
Precisamos lembrar.
A consciência que salvará o futuro é, na verdade, uma memória ancestral — aquela que todas as espécies conhecem, menos a nossa.
Talvez seja hora de reavaliarmos nossos valores.
Perguntas Frequentes sobre a Lei Natural de Autoconservação
1. O que é a Lei Natural de Autoconservação e como a civilização moderna a viola?
A Lei Natural de Autoconservação é o princípio ecológico universal que sustenta a vida, focando no equilíbrio, na circularidade, na limitação e na regeneração (o ciclo da vida). A civilização moderna viola essa lei ao adotar a linearidade do crescimento infinito, a dominação da natureza (vista como recurso) e a competição ilimitada, agindo contra a capacidade biológica do planeta.
2. O que o artigo chama de Sombra Coletiva e qual a sua relação com o sofrimento individual?
A Sombra Coletiva é o inconsciente cultural da civilização, formada por tudo o que foi reprimido ao se abandonar a lei natural, como a vulnerabilidade, a interdependência e o ritmo orgânico do corpo. O sofrimento individual (como burnout, ansiedade e depressão) nasce dessa sombra, pois o indivíduo é forçado a seguir o mito impossível do "Self Made Man" que exige crescimento e autossuficiência infinitos em um sistema finito.
3. Qual foi a inversão civilizacional que rompeu o vínculo com a natureza?
O artigo aponta a ascensão de grupos como os indo-europeus (Ários), há cerca de 12 mil anos, como o ponto de virada. Eles introduziram o mito dos guerreiros celestes, substituindo as divindades da Terra, e estabeleceram a propriedade, as hierarquias verticais e a expansão como valores centrais, transformando a natureza de Mãe em Recurso e o ser humano em Dominador.
4. O que significa viver no cheque especial ecológico e qual a prova científica disso?
Viver no cheque especial ecológico significa que a humanidade consome mais recursos e gera mais resíduos do que a Terra consegue regenerar em um ano. A prova científica citada pela Global Footprint Network é que, anualmente, consumimos o equivalente a cerca de 1,8 planetas, o que é marcado pela data cada vez mais precoce do Overshoot Day (Dia da Sobrecarga da Terra).
5. Qual é a única alternativa para evitar o colapso segundo o artigo?
A única alternativa é a Correção Voluntária pela Consciência. Isso exige uma mudança de paradigma que não é um retorno ao passado, mas sim a restauração do princípio da autoconservação, trocando o foco em crescimento econômico por regeneração, competição por cooperação, e linearidade por circularidade, recuperando uma memória ancestral de integração com o ciclo da vida.
Fonte: Global Footprint Network. (2023). Ecological Footprint Accounting: Principles and Methods.
Disponível em: https://www.footprintnetwork.org/resources/footprint-science/
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