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Transferência e Contratransferência na Psicologia: Como eu, como psicólogo cognitivo-comportamental, trabalho esses fenômenos na prática

Artigo Publicado: 28/11/2025
Por Osvaldo Marchesi Junior, Psicólogo | CRP 06/186.890 – Terapia Cognitivo-Comportamental

Transferencia e Contratransferencia na Psicologia - TCC - Osvaldo Marchesi Junior - NeuroFlux

A relação terapêutica é uma das forças mais transformadoras que temos no consultório.

Mesmo com todas as técnicas, protocolos e evidências da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), é impossível ignorar que, a cada sessão, duas histórias se encontram: a do paciente e a minha. E, nesse encontro, surgem fenômenos que moldam a forma como o processo terapêutico acontece — especialmente transferência e contratransferência.

Embora esses temas sejam mais conhecidos na psicanálise, a TCC contemporânea compreende profundamente esses fenômenos e os utiliza como dados clínicos valiosos para entender padrões emocionais e comportamentais que se repetem na vida do paciente.

Escrevo este artigo para explicar, como identifico, manejo e utilizo transferência e contratransferência na prática, trazendo exemplos reais e orientações claras para quem deseja entender esse tema de forma acessível, ética e tecnicamente precisa.

O que é transferência na psicologia? E por que é tão importante entender isso

Transferência é quando sentimentos, expectativas e padrões aprendidos em relações significativas — geralmente na infância, mas não apenas — são projetados em outra pessoa no presente.

Na terapia, isso significa que o paciente começa a reagir a mim como se eu fosse alguém da história dele, e não apenas o psicólogo presente na sessão.

É como se uma lente emocional antiga fosse colocada sobre mim.

E essa lente pode ser:

• Acolhedora (transferência positiva).
• Desconfiada (transferência negativa).
• Idealizada (transferência protetora).
• Hostil, evitativa, sedutora ou ambivalente.

Transferência não é “carência”, nem “imaginação”, nem “exagero”.

É um fenômeno legítimo, previsível e profundamente humano.

Na TCC, diferentemente da psicanálise, nós não buscamos interpretar a transferência como chave principal do tratamento; nós a observamos como um dado da relação que revela crenças centrais, permitindo trabalhar padrões emocionais e cognitivos que se repetem em outras relações do paciente.

Exemplos de transferência na minha prática clínica

1. Quando virei “a figura de autoridade rígida

Uma paciente — vou chamá-la de Marina — começou a reagir com grande ansiedade toda vez que eu perguntava algo mais direto.

Mesmo perguntas neutras geravam nela a sensação de estar sendo “julgada”.

Na terceira sessão, ela disse:

Parece que você está bravo comigo… parece meu pai.

Ali estava a transferência. Aquele medo não era sobre mim — era sobre a história dela.

Na TCC, usamos esse momento para identificar:

• Crenças centrais ativadas (“Eu decepciono as pessoas”, “Homens sempre julgam”, “Eu preciso ser perfeita para ser aceita”).
• Padrões de interpretação (“Ele está bravo”, “Ele deve achar que estou exagerando”).
• Respostas emocionais (ansiedade, tensão, autocensura).

Esse tipo de transferência se torna uma porta de entrada para compreender padrões que também acontecem com chefes, parceiros, amigos e familiares.

2. Transferência idealizada: “Você é diferente de todo mundo

Outro paciente, vou chamá-lo de Lucas, colocava em mim uma expectativa de perfeição:

Se você desistir de mim também, acho que eu não aguento.

Esse tipo de transferência cria uma dependência emocional do terapeuta — e, na TCC, trabalhamos isso com muito cuidado: fortalecendo autonomia, identificando crenças de abandono e, principalmente, construindo uma relação segura, mas realista.

3. Transferência amorosa (muito mais comum do que se imagina)

Certa vez, uma paciente — chamarei de Ana — desenvolveu sentimentos românticos.

Ela dizia:

Você é o único homem que me escuta.

Isso é transferência amorosa — não é “paixão real” pelo terapeuta, e sim a ativação de um padrão emocional não elaborado.

Na TCC, tratamos isso com:

• Acolhimento ético.
• Clareza de limites.
• Exploração das necessidades emocionais não atendidas.
• Entendimento técnico do vínculo terapêutico.

Nada é “culpa” do paciente; é um fenômeno da relação.

O que é contratransferência? E como eu identifico em mim

Se transferência é o que o paciente projeta em mim, contratransferência é o que eu, como terapeuta, sinto em relação ao paciente — influenciado pela minha história, valores, vulnerabilidades, limites e até pelo meu estado emocional atual.

A grande diferença é: eu sou responsável por manejar isso.

A contratransferência pode se manifestar como:

• Vontade de “salvar” o paciente.
• Irritação inesperada.
• Excesso de identificação.
• Desejo de agradar.
• Medo de frustrar.
• Sentimento de incompetência.
• Simpatia exagerada.
• Impaciência.
• Superenvolvimento emocional.

E tudo isso precisa ser identificado com honestidade clínica.

Exemplos de contratransferência na minha prática

1. Quando senti vontade de “proteger demais

Uma paciente que lembrava muito minha irmã mais nova despertava em mim uma tendência a querer aliviar sua dor rapidamente.

Notei que estava tentando “resolver” antes de “escutar”.

Esse é um alerta clássico de contratransferência.

2. Quando identifiquei irritação inesperada

Uma paciente demorava longos minutos para responder perguntas simples.

Percebi que, após alguns encontros, eu ficava levemente impaciente.

Isso dizia muito mais sobre mim do que sobre ela.

E quando identifiquei isso, pude ajustar minha postura, trabalhar com mais presença e usar técnicas de regulação interna.

3. Quando o paciente ativa algo da minha própria história

Em alguns casos, a identificação é tão grande que eu percebo necessidade de redobrar meu monitoramento.

É por isso que supervisão clínica e autoconsciência são práticas contínuas e essenciais.

Como a TCC trabalha a transferência na prática

A TCC entende transferência como dados relevantes para conceitualização.

Ou seja, não interpretamos simbolicamente — nós:

• Observamos padrões.
• Conectamos às crenças centrais.
• Analisamos as reações emocionais.
• Compreendemos as estratégias de enfrentamento ativadas.
• Trabalhamos a percepção do paciente sobre a relação.
• Testamos interpretações alternativas.
• Fortalecemos habilidades sociais e emocionais.

Como identifico transferência em tempo real: Checklist clínico

Sinais cognitivos

• O paciente interpreta neutralidade como rejeição.
• Supõe intenções negativas (“você está bravo”).
• Acredita que precisa performar perfeição.
• Teme ser abandonado.

Sinais emocionais

• Ansiedade intensa ao ser questionado.
• Vergonha ou medo exagerado de falhar.
• Gratidão excessiva.
• Raiva súbita.

Sinais comportamentais

• Pedidos implícitos de validação constante.
• Tentativas de agradar o terapeuta.
• Rupturas de vínculo desproporcionais.
• Evitação ou exagero na abertura emocional.

Esses sinais indicam ativação de crenças centrais e esquemas emocionais que a TCC pode explorar de maneira estruturada.

Como manejo transferência com técnicas da TCC

1. Sondagem Socrática

Perguntas que ajudam o paciente a avaliar a validade da interpretação:

• “O que indica que estou bravo com você?
• “Há alguma outra possibilidade?

2. Normalização e psicoeducação

Explicar a transferência reduz vergonha e medo:

• “É comum que esses sentimentos apareçam na terapia. Vamos explorar isso juntos.

3. Teste de realidade em sessão

Comparar percepções com evidências reais.

4. Exposição emocional gradual

Para pacientes com medo de rejeição.

5. Conceitualização compartilhada

Eu mostro como o padrão aparece na relação e no cotidiano.

6. Reestruturação cognitiva

Identificamos crenças ativadoras e desenvolvemos pensamentos alternativos.

Como eu gerencio contratransferência na TCC

A TCC requer que o terapeuta pratique monitoramento emocional constante.

Alguns recursos que uso:

1. Autoavaliação durante e após a sessão

Eu observo:

• Tensão.
• Pressa.
• Necessidade de aprovação.
• Pensamentos automáticos ativados.

2. Supervisão clínica

É parte essencial do meu trabalho.

3. Grounding do terapeuta

Respiração, pausa estratégica, reorientação para o caso.

4. Retorno ao modelo cognitivo

Eu me pergunto:

• “Qual crença minha foi ativada?
• “Estou reagindo ou intervindo?

5. Reafirmação de limites éticos

A clareza evita superenvolvimento.

Limites éticos: Quando a transferência precisa ser manejada com precisão

Alguns fenômenos exigem intervenção cuidadosa:

Transferência erotizada

Não é incomum, e não significa “amor real”. É ativação de necessidades emocionais não satisfeitas.

Transferência agressiva

Pode revelar crenças de injustiça, abandono ou rejeição.

Dependência emocional do terapeuta

Trabalhamos autonomia, responsabilidade e habilidades de regulação emocional.

Idealização extrema

Ajudo o paciente a desenvolver percepções mais equilibradas da relação.

Como transferência e contratransferência afetam o progresso terapêutico

Quando ajudam

• Revelam crenças centrais profundas.
• Fortalecem a aliança terapêutica.
• Permitem trabalhar padrões em tempo real.
• Aumentam motivação e sensação de segurança.

Quando atrapalham

• Se o terapeuta não identifica contratransferência.
• Quando limites não são claros.
• Quando o paciente evita o compromisso terapêutico por medo.

A TCC enxerga ambos como oportunidades de crescimento.

Exemplo clínico

Caso: “O medo do abandono em tempo real

Uma paciente com 32 anos, buscou terapia devido a um padrão recorrente:

Eu tenho medo de ser abandonada por qualquer pessoa importante.

Nas primeiras sessões, ela chorava quando eu pedia que descrevesse situações de conflito com parceiros.

Certo dia, ela chegou atrasada 20 minutos. Quando perguntei o motivo, ela ficou em silêncio e disse:

Eu sabia que você ia ficar bravo… igual meu ex ficava. Você deve estar me odiando agora.

Isso é transferência negativa com base em experiências passadas.

Exploramos juntos:

• Evidências (eu não havia demonstrado irritação).
• Crenças (“as pessoas se decepcionam comigo”, “não sou prioridade”, “serei abandonada se falhar”).
• Emoções (medo, vergonha, frustração).

Mais tarde, percebi em mim uma vontade instintiva de “reconfortá-la demais”. Essa era minha contratransferência.

Trabalhei isso internamente (grounding + supervisão) e, na sessão seguinte, trouxe:

Percebo que quando você imagina que eu possa me frustrar, aparece um medo muito grande. Vamos entender esse padrão?

Ao longo das semanas:

• Identificamos gatilhos.
• Fizemos reestruturação cognitiva.
• Simulamos conversas difíceis.
• Trabalhamos habilidades de regulação emocional.
• Exploramos crenças de abandono ativadas em tempo real.

Após três meses, ela disse:

A primeira vez que senti que você não ficou bravo de verdade… foi estranho. Mas foi a primeira vez que percebi que talvez eu tenha interpretado errado muitas coisas na minha vida.

Esse momento representou uma virada terapêutica.

Transferência: Quando ajuda e quando atrapalha

Quando ajuda

• Revela padrões emocionais profundos.
• Fortalece confiança.
• Permite reconstrução de crenças dentro de uma relação segura.

Quando atrapalha

• Quando vira dependência.
• Quando a idealização impede confrontos terapêuticos.
• Quando gera rupturas abruptas.
• Quando o paciente projeta no terapeuta papéis irreais.

A TCC ajuda a transformar esse desafio em ferramenta.

Como saber se você está vivendo transferência na terapia: Guia para o(a) leitor(a)

Você pode estar experienciando transferência se:

• Sente medo exagerado de decepcionar o terapeuta.
• Tem sensação de que será abandonado por ele.
• Interpreta neutralidade como frieza.
• Coloca o terapeuta em pedestal.
• Sente ciúmes, raiva, vergonha ou necessidade de aprovação.
• Tem certeza de que ele está julgando você, mesmo sem evidências.
• Sente uma “criança interior” reagindo à presença do terapeuta.

Se algum desses sinais apareceu, isso é comum — e trabalhável.

Se você percebe padrões emocionais intensos em suas relações, podemos trabalhar isso juntos

Se, ao longo deste artigo, você percebeu que esses fenômenos são parte da sua história, a TCC pode ser um espaço seguro e estruturado para entender esses padrões e transformá-los.

Atendo online com abordagem baseada em evidências, em um ambiente acolhedor, técnico e ético.

Se desejar iniciar o seu processo terapêutico, você pode entrar em contato para agendar sua sessão online comigo.

Perguntas Frequentes sobre Transferência e Contratransferência na Psicologia

1. O que é transferência na psicologia?

Transferência é quando o paciente projeta no terapeuta sentimentos, expectativas e padrões emocionais aprendidos em relações passadas, influenciando a forma como percebe a terapia.

2. Como identificar transferência na TCC?

Observamos distorções de percepção sobre o terapeuta, medo de julgamento, idealização, insegurança exagerada, raiva súbita ou necessidade de aprovação — sinais de crenças e padrões ativados.

3. Qual a diferença entre transferência e contratransferência?

Transferência vem do paciente para o terapeuta; contratransferência é a reação emocional do terapeuta ao paciente. Na TCC, ambas são usadas como dados clínicos importantes.

4. A transferência atrapalha a terapia?

Não. Quando bem manejada, ela ajuda a revelar crenças centrais profundas e acelera o progresso terapêutico. Torna-se problema apenas quando não é identificada ou quando os limites são frágeis.

5. O que fazer quando o paciente se apaixona pelo terapeuta?

O manejo ético envolve acolhimento, explicação sobre transferência, clareza de limites e uso do fenômeno para compreender necessidades emocionais profundas — sem incentivo, julgamento ou ruptura abrupta.

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