Fundamentalmente na bipolaridade, o raciocínio clínico precisa partir, em termos de conceitualização e de formulação de caso, de três diferentes condições cognitivas específicas: o paciente eutímico (com humor regulado e estável), o paciente em episódio de mania ou de hipomania e o paciente em episódio depressivo.
Neste sentido, em um paciente bipolar, crenças centrais, pensamentos automáticos disfuncionais e comportamentos, em cada um desses momentos, serão absolutamente distintos.
Os aspectos mais relevantes da avaliação clínica, deste modo, incluem: déficits e excessos na vida do paciente, sintomas e histórico de como o paciente interpreta os eventos de sua vida, distorções específicas dos pensamentos, pressupostos, esquemas negativos e estratégias compensatórias, dificuldades interpessoais, falta de assertividade e perdas de relacionamentos.
De forma bem esquemática, o ciclo vicioso da depressão inicia-se, então, com o indivíduo apresentando uma emoção negativa, como por exemplo a tristeza, uma falta de energia associada ao desânimo levando a pensamentos distorcidos como, eu sou um completo fracasso, não adianta nem tentar e, consequentemente, a comportamentos de autossabotagem, de evitação, de desistência das coisas e de isolamento, fazendo com que o indivíduo sinta-se cada vez mais e mais deprimido.
Entretanto, este mesmo indivíduo bipolar, quando entra em um ciclo vicioso da mania ou da hipomania, apresentará inicialmente, um sentimento básico de euforia, com super capacidade de fazer as coisas, muita disposição e energia levando a pensamentos, por exemplo, do tipo, eu sou capaz de fazer tudo o que eu quiser, eu posso superar todos os meus problemas sozinho e eu sou superior a todos os demais, desencadeando, assim, em um comportamento mais pró-ativo, buscando desafios, com novas ideias, sentindo-se criativo ao extremo e muito menos inibido para expor as suas opiniões.
Assim sendo, a conceitualização na terapia cognitivo-comportamental, visando a psicoeducação, busca comparar, os pensamentos, os sentimentos e os comportamentos dos indivíduos diagnosticados com bipolaridade, nestes três diferentes estados.
Justamente, por isso, um mesmo indivíduo pode, por exemplo, em um estado depressivo, pensar que ele é um incompetente, em um estado de humor regulado, pode apresentar maior flexibilidade, pensando que às vezes ele costuma ser competente e, por fim, em um estado maníaco, pode pensar de maneira extremada que é um tremendo fracasso em tudo que faz.
No tratamento cognitivo-comportamental da bipolaridade, então, o grande desafio clínico é tratar os sintomas depressivos e também, auxiliar no manejo da mania e da hipomania.
No tratamento do transtorno bipolar, fundamentalmente, por ser considerado o mais biológico de todos os transtornos mentais, até a década de 80, sobretudo, acreditava-se que apenas a farmacologia seria eficaz, surgindo a posteriori, novas estratégias de tratamento com o início das pesquisas em psicoterapia e modelos da terapia cognitivo-comportamental com boas evidências, além de novos fármacos e de outras possibilidades de tratamento dos sintomas depressivos crônicos.
Entretanto, devido à grande parte dos indivíduos com transtorno bipolar serem refratários a medicação, especialmente os do tipo II, a psicofarmacologia vem tornando-se, assim, a opção mais viável a ser adotada, principalmente, a terapia cognitivo-comportamental, com manuais e protocolos específicos de intervenções.
No que tange aos aspectos farmacológicos, os principais medicamentos prescritos para regulação do humor envolvem: estabilizadores de humor (lítio), anticonvulsivantes (carbomazepina e ácido volpróico), antipsicóticos (quetiapina e aripriprazol) e antidepressivos.
Mas afinal de contas, porque a terapia cognitivo-comportamental é indicada para o tratamento de pacientes bipolares?
A terapia cognitivo-comportamental, além de promover a psicoeducação sobre o transtorno, também, busca estimular a adesão ao tratamento farmacológico, melhorando a autoestima e a autoeficácia, beneficiando o desenvolvimento social e ocupacional e reduzindo o risco de suicídio e de recaídas.
Deste modo, os três pontos mais relevantes para o tratamento, levam em consideração as evidências da psicoterapia no transtorno bipolar, os objetivos centrais e os componentes do tratamento.
Com relação às evidências, segundo a divisão 12 da Sociedade Americana de Psicologia (APA) existem cinco tratamentos eficazes para a regulação do humor em pacientes diagnosticados com transtorno bipolar, reduzindo consideravelmente a sintomatologia, sendo dois desses, cognitivo-comportamentais: a terapia comportamental para o transtorno bipolar e a psicoeducação para o transtorno bipolar. Os outros tratamentos, englobam: a abordagem familiar, o cuidado sistemático e a terapia interpessoal do ritmo social.
Uma meta-análise dos estudos, publicada em 2017, sobre a eficácia da terapia cognitivo-comportamental para o tratamento do transtorno bipolar, com o levantamento de todas as publicações científicas sobre o transtorno, aponta resultados positivos de melhora dos sintomas depressivos e maníacos, além da melhora do funcionamento psicossocial.
Assim sendo, os principais objetivos da TCC no tratamento da bipolaridade, incluem: a educação do paciente sobre o transtorno, o treino da habilidade de automonitoramento da ocorrência, da gravidade e do curso dos sintomas maníacos e depressivos, a promoção da adesão ao tratamento medicamentoso e o fornecimento de estratégias não-farmacológicas, cognitivo-comportamentais, para o enfrentamento dos problemas associados ao humor depressivo ou maníaco.
Como componentes essenciais são, assim, adotadas, a psicoeducação, a terapêutica, a promoção do aumento da aderência a medicação prescrita, o monitoramento e a estabilização afetiva, o manejo dos sintomas agudos, a prevenção da mania, o desenvolvimento de uma rede de suporte social e a elaboração conjunta, com paciente e familiares, de estratégias terapêuticas individualizadas para cada caso específico.
DR. OSVALDO MARCHESI JUNIOR
Psicólogo em São Paulo - CRP - 06/186.890
Atendimentos Psicológicos On-line e Presenciais para pacientes no Brasil e no exterior.
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e Hipnoterapia.
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